A Questão do Negro

"O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros." (Paulo Freire).
Com base nas manifestações sobre a valorização das africanidades e valendo-me das discussões promovidas pelo curso Educando Pela Diferença para a Igualdade, de 2006, desenvolvi com os estudantes do 1º Ano do Ensino Médio A, C, D e F, utilizando a Arte para reconstrução de conceitos e mudanças sociais, um projeto pedagógico voltado para a pesquisa, discussão e produção de trabalhos artísticos com enfoque na cultura afro-brasileira.
"Tudo pode ser estranho ou ruim quando não sabemos o que é, ou não sabemos seus significados." (B.R.P., 1º C).


Durante o primeiro trimestre de 2007, pudemos em conjunto, descobrir, discutir e rever muitos dos conceitos que até então tínhamos sobre a cultura africana. (publicação no blog)
"Eu acho que o negro tem muito medo de se expressar. Ele se esconde atrás da música, do jeito de se vestir e do jeito de falar." (M.B.M., 1º D).


Muitas das atividades, como a pesquisa musical (Clara Nunes, Beto Villares, Músicas tradicionais e contemporâneas africanas, pontos de terreiro, etc), por exemplo, trouxeram uma nova luz para os elementos constituintes das canções que repetimos e ouvimos sem refletir.
"O ser humano é contraditório, achamos que nos conhecemos, mas não fazemos nem idéia do que somos. São nas pequenas coisas que o ser humano se revela, na verdade, todos temos preconceito de alguma forma. (...) Acho que somos a face do bem e do mal. A que você vai seguir, vai depender do momento." (M. M., 1º A).


O trabalho com obras de Arte (Heitor dos Prazeres, Rubem Valentim e Modesto Brocos Y Gomes) selecionadas em livros, CD-ROM ou pranchas pedagógicas, representativas da realidade social, cultural e política de nosso país no momento de sua criação, forneceram base para discussões sobre a construção do preconceito e da intolerância, assim como, da discriminação racial; além das discussões, estendidas ao núcleo familiar e social dos alunos através de pesquisas e da representação de seus trabalhos plásticos.
"A história do povo afro-descendente é pouco conhecida ainda hoje. As pessoas só sabem que os negros eram escravos que se libertaram. Poucos admitem que sem os negros, muitas produções artísticas e culturais não existiriam em nossa sociedade." (A.B. 1º C).


O trabalho contou ainda com filmes e jogos (Crash, no Limite e Maculelê), que, depois de explorados através da expressão corporal (nesta etapa, a participação do professor de educação física foi de grande importância), resultaram em performances representativas da luta pela igualdade e liberdade de expressão.
"A expressão corporal nos faz entender que a liberdade é possível, e que nunca é tarde para buscar nossa origem cultural e valorizar o que somos." (I.M.S., 1º D).


Os resultados identificados com o projeto puderam ser vistos através de relatórios produzidos pelos alunos e alunas, nos quais, eles tentaram representar seu ponto de vista sobre a questão do negro.
"A questão do negro foi 'superação'. Superar ao longo de 300 anos, o fato de ser tratado e reconhecido como animal. Da falta de liberdade, de privacidade, de respeito.
A questão do negro é o 'pré-conceito'. Sofrer porque acreditou, orou, dançou. Ser visto como 'errado' por quem não tem o direito de julgar ninguém.
A questão do negro é 'defesa'. Defender o que sente, o que pensa, como age, sem, na maioria das vezes, ter direito ao “ataque”.
A questão do negro é 'aprender'. Aprender a superar limites, superar dificuldades e 'brincadeiras', aprender a crescer.
A questão do negro será 'vencer'. Vencer o preconceito, o desemprego, a falta de respeito. Vencer o mundo que o julga sem conhecer. " (A.B.D.R., 1º C).


Apoiados em discussões, leituras, pesquisas e também na produção artística em todas as suas linguagens, os alunos e alunas do Ensino Médio, conseguiram mostrar que o desenvolvimento das aulas de Artes não precisa (e nem deve) necessariamente se prender apenas ao fazer. (Esse projeto foi classificado entre os finalistas do Prêmio Arte na Escola Cidadã 2007).
"Preconceito existe dentro de todos, e todos são suas vítimas. O que o negro tenta mostrar é que ele é um ser humano comum, que sua 'cor' não o torna diferente. Eles vieram da África sim, têm suas religiões e culturas, mas isso não os torna mais importantes. Importante, é lembrar que todos somos iguais, e merecemos no mínimo, respeito." (A.G.A., 1º A).


Assista o Maculelê clicando aqui

Mais que isso, a reflexão contínua sobre o que vêem, ouvem, falam e criam – dentro e fora do ambiente escolar, fizeram parte de todo o projeto e permitiram, além da identificação dos preconceitos perpetuados pela sociedade, novas questões, que atualmente vêm sendo abordadas em outro projeto pedagógico na disciplina.
"O contato com a cultura africana me mostrou como podemos ser felizes com coisas simples, de que não devemos desistir, que temos origem e que sempre é possível vencer os desafios." (C.A.Z.S., 1º A).



Prof. Paulo Antonini leciona Artes na Escola Dinah.



Clique sobre a foto para visitar o blog da Escola Dinah.