Dinah Lucia Balestrero


"O melhor produto do Brasil ainda é o Brasileiro."
Luís da Câmara Cascudo

Tirando o antigo rosário, da bolsa em seu colo, a velha professora envolve-o nos dedos magros e diz sobre os óculos:
- Façam a prova quietinhos que eu vou orar por vocês.
Logo, a velhinha estará cochilando, enquanto a classe aproveita para tirar suas dúvidas uns com os outros.




Nascida em Brotas no dia 02 de fevereiro de 1918, Dinah foi a caçula dos sete filhos de Ernesto e Dª Josepha Balestrero, trazendo em seu passado, a história dos antigos fazendeiros da região.
Sofrendo de uma lesão na perna esquerda que a obrigava desde a mais tenra infância a usar incômodos aparelhos anatômicos, Dinah encontrou nos livros, os amigos fiéis que acompanhariam seus passos por cinquenta e oito anos dedicados à Educação.
Após receber o diploma da PUC de Campinas, que a habilitava para as aulas de História e Geografia, Dª Dinah iniciou seu trabalho em Brotas e Torrinha.
Mesmo a deficiência não a impedia de tomar o trem, que na época fazia o percurso entre os municípios, para dedicar-se à profissão que abraçara com tanto orgulho.
Mestra exigente, Dª Dinah foi responsável pela preparação de muitos alunos para o temido exame de admissão, que garantiria a vaga e a continuidade dos estudos para os jovens brotenses.
- Avise a mamãe que hoje você vai dormir aqui em casa.
Dizia a professora para suas alunas que, portando uma muda de roupas e a escova de dentes, obedeciam respeitosamente à ordem gentil.

No dia seguinte, às cinco horas da manhã, Dª Dinah as chamava. Servia um delicioso café e tendo ao lado a pequena Maria da Graça, sobrinha que ajudou a criar como se fosse sua filha, a professora iniciava sua lição.
Português, Matemática, História, Geografia.
Dª Dinah versava em letras sem medo de errar.
Exigia muito dos seus. Tanto quanto exigia de si própria.
- Não dou nota a aluno nenhum. Vocês é que devem tirar.
Dizia ela, irredutível ante as lágrimas daqueles que por um décimo ficavam retidos.
Mesmo as brincadeiras grotescas de que por vezes foi vítima dos alunos mais velhos, não impediam-na de penosamente subir os degraus da Escola para ministrar sua lição.
Em sua última noite, Dª Dinah sentia-se cansada. Estava triste e não sabia dar um motivo.
- Amanhã vamos ver o médico, Nah... disse-lhe a sobrinha, antes do beijo de boa noite.
Não houve amanhã.
Dª Dinah partiu dormindo. Nas mãos, segurava a chupeta do sobrinho-neto, que fazia adormecer todas as noites.
Amanhecia 18 de novembro de 1976.
O velho relógio da parede da sala, também terminou sua corda naquele dia, e sem as mãos experientes da velha professora, única que sabia como ativá-lo, nunca mais voltou a funcionar.



No ano seguinte a Escola Normal e Ginásio Estadual de Brotas, assumiu seu nome, em uma homenagem à velha mestra, que superando todas as desculpas que lhe dariam razão para permanecer sentada em casa, colaborou com a formação de tantos meninos e meninas que passaram por ali.
Modelo de dedicação e profissionalismo, Dª Dinah Lúcia Balestrero deixou muito mais que o nome para a Escola.
Deixou ali, o espírito dedicado, o orgulho pela profissão e sem dúvida alguma, a semente da esperança para todos que vestem sua camisa.


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Pesquisa, Texto e Imagens

Paulo Antonouza